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Câmeras, para que te quero?

  Um dos temas que promete controvérsias entre os candidatos ao governo do Estado de São Paulo neste ano é o das câmeras nas fardas da Polícia Militar. Muitos já não se lembram, mas uma câmera oculta já provocou importantes discussões sobre a atuação da PM no Estado. Há exatos 25 anos, a juíza da 3ª Vara Criminal do Foro de Diadema, Maria da Conceição Pinto Vendeiro, divulgava a sentença de pronúncia dos policiais militares envolvidos na morte de Mário José Josino, vítima fatal de uma rotina de espancamentos e tortura praticada por um grupo de PMs na cidade do Grande ABC. Essa história é narrada pelo promotor José Carlos Blat e o jornalista Sérgio Saraiva no livro “O Caso da Favela Naval – Polícia contra o Povo” (Contexto, 2000). Promotor do caso, Blat acredita que o destino do inquérito seria um silencioso arquivamento se não houvessem explodido na imprensa imagens da truculência policial em bloqueios na rua que cortava a Favela Naval, inclusive do episódio que vitimou Josin...

A galinha dos ovos de ouro

Após anos de privações, um casal de camponeses recebeu mágico presente: uma galinha que punha ovos de ouro. Tudo o que eles precisavam fazer era cuidar da bichinha, que a cada semana lhes recompensava com um sólido do nobre metal. Mas o tempo foi passando, a família foi aumentando, e o ouro da galinha já não era suficiente para atender aos desejos de todos. Um grupo de familiares defendeu manter a galinha fechada, para que ela não gastasse energia pastando pelo terreiro.   Sob o protesto de alguns, assim foi feito. - Olha lá, a galinha está viva e agora bota dois ovos por semana! Sem ouvir os alertas de que isso poderia fazer mal à fantástica ave, passaram a deixar a luz acesa, impedir o seu sono. Injetaram-lhe hormônios. Os ovos vinham, mas nunca eram bastante. A galinha já não andava e não cacarejava. Perdia penas, mas ainda botava os ovos. Um dos herdeiros teve a ideia de antecipar os recebíveis da galinha. - Eu topo, mas quero a galinha como garantia - disse o ban...

Sem egoísmo

A questão da fome no Brasil foi motivo para a criação de diversas campanhas de distribuição de alimentos, cuja validade para resolver o problema foi amplamente questionada. Partindo da frase “dar o peixe ou ensinar a pescar”, logo de início parece óbvio que “ensinar a pescar” é a solução, já que deixa os homens independentes da caridade alheia. Seguir este pensamento é muito melhor. Pois é cômodo. Uma pessoa um pouco mais atenta logo vê os empecilhos. O Brasil tem uma lista incontável de deficiências, que afetam todos os setores da economia e da sociedade. Restringindo nosso raciocínio do peixe à educação: tem uma criança condição de estudar se muitas vezes ela tem uma alimentação inferior à de um cachorro de apartamento? E depois, educar as crianças não vai aumentar o mercado de trabalho. Essa história de ensinar a pescar pode valer para um trabalhador rural, que saiba cultivar a terra e que tenha acesso à mesma. Mas o que pode ser dito em relação aos miseráveis que sobrevivem n...

Memória de 1986

Fiquei maravilhado quando vi aquelas coisinhas coloridas no fundo da cartela de Yakult. Eram bandeiras, as bandeiras dos países que disputariam a Copa do Mundo. Por razões óbvias, de 82 não me lembro, então a Copa do México foi a primeira que acompanhei, e foi a partir dali que passei a realmente me interessar por futebol. Antes disso, ficava perturbando meu pai enquanto ele tentava ver futebol na TV. - Pai, pode pôr no desenho? - Não. Meus pais me deram uma versão da Amarelinha, e eu tinha uma bola da mesma cor, cortesia dos filmes “CURT”, que ficava jogando na parede da sala para pegar de volta, simulando ser um goleiro. A parede e o teto da sala eram decorados com marcas de bola. Acompanhar a Copa foi sensacional. As cores das camisas, jogadores comemorando, os lances de Maradona sendo repetidos exaustivamente na televisão. Na estreia, o Brasil jogou de camisas amarelas e calções brancos. Achei feio, mas mamãe explicou que a Espanha já estava usando calções azuis. Um solit...

Grandes números, pequenas conclusões: comparando as profissões

Os dados do IRPF não formam um ranking de salários. Mas, como todo mundo adora um ranking, seguem as 20 ocupações principais de mais alta renda média declarada no ano-calendário 2020, conforme o método  aqui  proposto: Rank Ocupação principal do declarante Declarantes Média mensal (R$) 1 Membro do Ministério Público 14.329   49.241,40 2 Diplomata e afins 2.760   47.341,96 3 Membro do P. Judiciário / Trib. de Contas 21.206   46.174,62 4 Titular de Cartório 10.341   41.686,20 5 Advogado setor público, procurador, etc.. 29.849   27.982,91 6 Médico 414.432   26.715,71 7 Servidor do B. Central, CVM e Susep 4.938   26.369,7...